TORMENTAS BRASIL TRANSFERIRÁ SUA SEDE PARA BAGÉ, 500 KM AO SUDOESTE DA SERRA GAÚCHA
O ano de 2023 foi marcado por dois investimentos decisivos que devem transformar radicalmente o futuro da nossa vinícola. Um deles foi a aquisição da área de terras que vai abrigar a nova sede e o novo vinhedo, em Bagé. O outro foi a implantação da primeira parcela do vinhedo, que ora cresce viçoso em meio à imensidão dos Pampas.
Ainda vai levar alguns anos, contudo, até que a construção do novo prédio e a transferência da operação brasileira de Canela para Bagé possa ser concretizada. Mas por que a mudança para a Campanha Gaúcha? Porque acreditamos ser a melhor região brasileira para o cultivo de uvas viníferas de qualidade. Aliás, não somos os únicos a pensar assim: estudos feitos no início dos anos setenta pela Universidade de Davis (Califórnia) em joint venture com a Universidade de Santa Maria (Rio Grande do Sul) apontaram a região de Bagé como a melhor do hemisfério sul para o cultivo de uvas viníferas. Ademais, após vinte e duas safras elaborando vinhos com uvas de diferentes partes do Rio Grande do Sul, foi com os vinhedos de Bagé que obtivemos os melhores resultados, além de a região oferecer as melhores condições do estado (em termos de clima e solo) para uma viticultura mais consonante com os princípios do cultivo biológico ou sustentável. Hoje as nossas uvas vêm exclusivamente da Campanha Gaúcha, viajando entre 500 e 650 km para chegar até a vinícola em Canela. A degradação da qualidade das frutas durante este longo transporte impõe riscos constantes para uma vinicultura de baixa intervenção, isso foi determinante para a mudança de endereço da nossa planta de vinificação. Os altos custos de frete, bem como a quantidade de idas e vindas para acompanhar as maturações e as colheitas, também foram decisivos para a resolução de transferir nossa estrutura para Bagé.
PROJETO TORMENTAS URUGUAY
Bagé estando a apenas 450 km do único enclave de clima mediterrâneo da América do Sul, onde se encontram os vinhedos oceânicos do sul do Uruguai, o Projeto Tormentas Uruguay veio como reflexo quase imediato dos nossos planos de transferência para a fronteira. Estando em Bagé, produzir no Uruguai foi um impulso tão espontâneo quanto um pato buscar a água. O município faz divisa com o Uruguai, representando um endereço geograficamente estratégico para quem pretende produzir vinho nos dois países. Mas precisamos desfazer certa confusão em torno deste empreendimento: nossas uvas uruguaias não serão vinificadas no Brasil, tal operação não é permitida. Fundamos uma empresa e registramos uma vinícola no Uruguai totalmente independente da brasileira. São duas pessoas jurídicas autônomas e independentes. Não temos sócios de nenhum tipo nos dois países e a vinícola montada ao sul do Uruguai é cem por cento nossa, produzindo e engarrafando seus vinhos em equipamentos próprios. Não terceirizamos nenhum serviço junto a qualquer empresa uruguaia, tampouco utilizamos a estrutura de terceiros. Somos a primeira vinícola brasileira a abrir uma unidade produtiva própria no Uruguai, com total controle sobre o processo desde a colheita das uvas até o engarrafamento dos vinhos — autonomia fundamental em vinicultura de baixa intervenção. Embora fosse mais prático e econômico usar uma estrutura uruguaia para terceirizar a elaboração dos nossos vinhos, os resultados jamais seriam os mesmos. Numa planta de vinificação convencional não encontraríamos as rigorosas condições de assepsia e esterilização necessárias à elaboração de vinhos com baixa adição de So2. Em nosso protocolo de vinificação essa assepsia começa pela limpeza draconiana das caixas de colheita (só usamos caixas próprias) e termina na entrada do vinho em garrafa, passando pela esterilização de mangueiras e rigorosa limpeza de tanques. Só assim é possível reduzir o uso de conservantes.
2024 foi a primeira safra do Projeto Tormentas Uruguay, representando um ano atípico em meu histórico de vinhateiro: foi o primeiro ano em que não fiz vinho no Brasil em vinte e duas safras. Uma catástrofe climática sem precedentes no Rio Grande do Sul causou enormes perdas nos vinhedos gaúchos e o nosso, que usa menos defensivos agrícolas, registrou perda total. A safra no Uruguai, contudo, foi ótima para Pinot Noir, que é uma casta mais precoce. Tivemos tempo quente e seco durante a maturação, com excelente sanidade nas uvas. Quanto às variedades mais tardias houve perdas com as chuvas também no Uruguai. A safra 2024 foi atípica, igualmente, porque após quase duas décadas apenas acompanhando e dirigindo as vinificações no Brasil, voltei a “colocar as mãos na massa”. Érica e eu decidimos fazer uma espécie de retiro espiritual em Echevarría, em meio à paisagem bucólica de pastagens e vinhedos onde se encontra nossa pequena vinícola. Foi uma oportunidade de purificar a alma através do trabalho pesado, voltando aos primórdios para o reencontro com um certo eu que ficou no passado. Como construímos tanques fermentadores mais altos que os que temos no Brasil, o esforço físico para transportar toneladas de bagaço dos tanques para a prensa em baldes erguidos a uma altura acima da cabeça deixou-me quatro dias sem poder me mover em direção alguma, e uma semana com dores no ombro, a despeito de praticar musculação desde os quatorze anos. Ambos ficamos com as pernas bastante batidas e machucadas, como vemos na foto da Érica na prensa, mais abaixo. Mas ao final da aventura rimos de tudo. O presente relato serve para ilustrar o quão artesanais e autorais são estes vinhos, e o quanto de nosso espírito (e de nossas mãos) estão presentes neles.
Nossos vinhos uruguaios, conforme a lei, só poderão sair da origem e entrar no Brasil engarrafados e rotulados no Uruguai, com os devidos selos e controles fiscais verificados pelo desembaraço aduaneiro, segundo as regras aplicáveis a qualquer vinícola uruguaia que exporte para o Brasil. A única relação entre nossa vinícola brasileira e nossa vinícola uruguaia são os vinhos feitos pelas mesmas mãos, segundo os mesmos princípios, mas em dois terroirs diferentes, sob legislações diferentes. Tormentas Brasil será a importadora exclusiva dos vinhos Tormentas Uruguai, ambas compartilhando o mesmo site na internet e usando o mesmo canal de distribuição: nossa ferramenta de e-commerce, ativa desde 2005. Em breve os vinhos produzidos em território uruguaio estarão à venda pelo site tormentas.com.br, lado a lado com os brasileiros.
O Projeto Tormentas Uruguay é voltado exclusivamente à variedade pinot noir e faz parte de nossa busca obstinada pela melhor expressão da casta na América Latina. O projeto é uma incubadora, sua continuidade vai depender dos resultados alcançados em condições de clima e solo diferentes, bem como do impacto que os vinhos resultantes vão causar junto ao nosso nicho de mercado, composto majoritariamente por aficcionados pelos tintos da Borgonha.
Marco Danielle
Setembro de 2024