ACORDO MERCOSUL-UE: A SOBREVIVÊNCIA DO
VINHO BRASILEIRO DE TERROIR DEPENDE UNICAMENTE DE VOCÊ
Em sua coluna na edição de outubro de 2026 de La Revue du Vin de France, o escritor Sébastien Lapaque emite um preocupante prognóstico sobre o qual já havíamos cantado a pedra há algum tempo, em nossa página do Instagram. No artigo, Lapaque expõe alguns fatos e números, e adverte: “O acordo Mercosul-UE vai inundar o mercado brasileiro de vinhos europeus fabricados em usinas de produção em série, em detrimento de pepitas locais costuradas à mão, de forte personalidade”. (Ler o artigo na integra)
O crítico e escritor francês vem provando os vinhos de pequenos produtores artesanais brasileiros com sincero interesse. Na edição de outubro de 2022 da Revue du Vin de France, dedicou sua coluna aos vinhos do Brasil. Tivemos a honra de figurar em destaque, no enunciado da matéria.
Quando se compreende o vinho como parte da expressão cultural de um povo, é possível vislumbrar a inquietude que moveu a pena desse escritor, crítico literário e enófilo francês. Paradoxalmente, sua preocupação não encontrará ressonância na parte realmente prejudicada, nas margens de cá do Atlântico: não vimos até agora um único parágrafo de protesto dos nossos intelectuais, formadores de opinião, críticos especializados ou enófilos. Pelo contrário, a inundação de importados a preços mais baixos parece causar certa euforia no meio, pela possibilidade de seguir consumindo vinhos estrangeiros sem desembolsar tanto. Para a maioria dos brasileiros, portanto, priorizar o que é de interesse nacional é uma virtude louvável dos outros países, aplicável a qualquer nação — menos à nossa.
É vexatório que um estrangeiro, correspondente internacional da mais importante publicação sobre vinhos da França, pareça mais preocupado com a sobrevivência da vitivinicultura brasileira que nossos próprios concidadãos. Sobre o mesmo problema, há algum tempo publiquei uma charge mostrando o enterro do natimorto vinho brasileiro de terroir. Ao redor da tumba, raposas e chacais comemoram com champanhe. Em outro post da série, minha charge mostra que seguimos subservientes ao jugo colonial, entregando o ouro brasileiro em troca de qualquer quinquilharia empurrada pelos colonizadores. Fora o rosnar de um que outro hater, o silêncio foi geral. Tout va bien dans le meilleur des mondes!
Enquanto a torcida do vinho estrangeiro festeja o golpe de misericórdia, enterrando a espada mais fundo na costas da moribunda vinicultura brasileira de terroir, a União Europeia oficializa o embargo suspendendo a entrada de produtos animais vindos do Brasil. O veto passou a valer em 3 de setembro de 2026. A decisão contempla os 27 países da união, incluindo a França, que historicamente lidera a pressão contra a entrada de produtos animais sul-americanos no mercado europeu. Touché! Um golpe de mestres: prometem comprar o frango bioquímico brasileiro contanto que, em contrapartida, facilitemos a entrada dos vinhos deles. Só que, na hora do “vamos ver”, recordam que a carne e as aves tupiniquins contém hormônios e antibióticos proibidos pela União Europeia e suspendem as importações, deixando os brasileiros literalmente a ver navios — navios já em rota de entrega, carregados com milhares de containers de vinhos europeus formatados para exportação, com a dose extra de sulfitos que requer o transporte transoceânico. Mas será que os europeus foram tão ingênuos a ponto de desconhecer as condições de produção pecuária no Terceiro Mundo quando esse acordo foi firmado? Resta saber se haverá algum boicote comercial brasileiro aos vinhos europeus em resposta ao embargo. Creio que todos sabemos a resposta.
Chapeau para os franceses, que defendem sua economia com unhas e dentes enquanto o Brasil sucumbe a uma subserviência histórica, herança do período colonial. Lembremo-nos da “Provisão Régia” de 21 de fevereiro de 1647, em que D. João IV proíbe a produção de vinho no Brasil. A situação se agrava com a criação da Companhia Geral do Comércio com o Brasil, em 1649, quando a Companhia recebe o “Estanco do Vinho” — um privilégio que lhe dá direito exclusivo sobre o fornecimento de vinho à colônia. Ao mesmo tempo, a provisão régia impede a produção de quaisquer bebidas locais que possam concorrer com o vinho português, mesmo o hidromel e a cachaça são proibidos. Curioso constatar o papel histórico do vinho como insígnia da superioridade do imperialista sobre o subjugado; do colonizador sobre o colonizado. Esse papel é tão importante que foram necessários 138 anos para que uma proibição maior surgisse: o Alvará de 5 de janeiro de 1785, por D. Maria I. Esse sim proibiu, de maneira muito mais abrangente, fábricas, manufaturas e teares no Brasil, à exceção dos tecidos grosseiros de algodão, destinados sobretudo às roupas dos escravos e ao ensacamento da produção agrícola — o que denota a tirania e a desfaçatez do período que marcou os primórdios da nação, remontando às raízes históricas da baixa autoestima dos brasileiros. Perdura até os dias de hoje uma certa submissão voluntária, mais velada que na época colonial, certo, mas que segue inculcada no consciente coletivo do país. Prova cabal desse servilismo estrutural ocorreu em nossa história recente, em 2012, 365 anos
depois da Provisão Régia de 1647. Quando alguns representantes do setor vitivinícola brasileiro finalmente reivindicaram, ainda que timidamente, uma medida de restrição às importações desenfreadas, foram virulentamente reprimidos e tiveram suas vinícolas boicotadas, com o apoio massivo de hordas de haters. A arrogância dos colonizadores não parece aplacar-se mesmo após séculos de exploração, haja vista o discurso falacioso e desdenhoso do português Antonio Soares Franco, produtor do vinho Periquita, que na época afirmou a IstoÉ Dinheiro: “as folhas das parreiras gaúchas são azuis, em vez de verdes, de tanto veneno que se usa para conseguir produzir uva lá.” Em vez de processado por calúnia e difamação e enxotado do Brasil abaixo de uma chuva de tomates, esse português prepotente, desesperado frente à ameaça de perder a teta verde-amarela, foi recebido com confetes por nossa imprensa, que mostrou claramente por que time torce ao dar a seguinte manchete ao artigo: “O Brasil entrou numa guerra comercial. E vai perder.”
Mas sejamos realistas: a maioria dos vinhos da França é melhor que a maioria dos daqui? Sim, com certeza, mas isso se deve mais ao patriotismo dos franceses que a algum desígnio divino. O vinho europeu tal qual o conhecemos hoje é relativamente recente. Por muitos séculos foi uma bebida rústica, acética, oxidativa, inconcebível para o gosto atual. O orgulho nacionalista francês moldou os vinhos da nação ao longo de décadas de aprimoramento, reflexo de uma forte demanda interna, sempre mais qualificada e naturalmente habituada a preferir os produtos locais. Será que o vinho francês seria o que é hoje se 87% dos franceses tivessem preferido comprar vinho espanhol ou italiano ao longo do último século? Creio que não. Você, que consome em prol do desenvolvimento da França em detrimento do nosso; que defende acaloradamente a livre entrada do vinho estrangeiro; que em 2012 rechaçou a salvaguarda com tanta veemência, sabia que em 1976, quando a entrada massiva de vinhos italianos e espanhóis ameaçou a sobrevivência da vitivinicultura francesa, violentos protestos tiveram espaço terminando numa guerrilha armada? Trocas de tiros com armamentos pesados ocasionaram mortes, o evento ficou na história como “A Tragédia de Montredon”, ou “a Guerra do Vinho”. Ou seja, o prestígio que o vinho francês tem hoje em parte decorre da defesa da produção local com unhas e dentes. Não se cria riqueza nem se alcança excelência onde impera o fatalismo e a subserviência. Os franceses poderiam ter abandonado seus vinhedos, vinícolas e vinhateiros à própria sorte e fomentado a importação de vinhos italianos e espanhóis mais baratos. Se não fossem franceses. Como são franceses, essa história teve um outro desfecho.
Quatorze anos depois do pedido de socorro das vinícolas gaúchas, refutado energicamente por nossos compatriotas, seguimos na mesma corda bamba, nadando contra a mesma corrente e lutando contra o mesmo complexo de vira-lata. O ambiente para quem produz vinhos no país é hostil. Penamos para manter nossas vinícolas em funcionamento abaixo de exigências, controles, burocracias, multas, impostos e taxas que não existem na Europa. Em nosso caso, enquanto nos mantemos firmes no compromisso de produzir vinhos honestos, de máxima pureza, é desanimador ver o país escancarando as porteiras para a entrada de praticamente tudo que a Europa precise desovar no Terceiro Mundo, livre dos entraves e imposições proibitivas que enfrentamos para produzir aqui. Se o acordo Mercosul-UE não serviu para desovar a carne brasileira na Europa por falta de rastreabilidade nos processos produtivos, serviu para abarrotar ainda mais o mercado brasileiro com os excedentes da indústria vinícola europeia, sem grandes exigências de transparência ou rastreabilidade dos processos produtivos. Ou seja, são dois pesos e duas medidas. Sobre essa concorrência assimétrica, nós, que há mais de vinte anos nadamos contra a corrente produzindo vinhos brasileiros de exceção, não esperamos qualquer apoio do governo nem ensejamos salvaguardas. Não se pode obrigar alguém a compreender a importância de algo: consciência não se impõe por decreto. Somente você, por meio da informação e de um consumo responsável, tem o poder de reverter o quadro e salvar nossa vitivinicultura de qualidade.
Entretanto, precisamos ser realistas. Há que se separar o joio do trigo. O Brasil produz muitos vinhos medíocres, resultantes da insistência em plantar uvas em regiões que historicamente se mostraram inadequadas a uma viticultura de qualidade. Quem faz um trabalho sério na cantina, partindo para as regiões mais longínquas do estado em busca das melhores uvas, paga o preço da má-reputação implantada durante meio século de práticas obscuras (às vezes fraudulentas), adotadas para corrigir uvas deficientes de vinhedos sobrecarregados, cultivados em regiões impróprias. Criou-se um estigma tão negativo em função de décadas de práticas erradas, que mesmo as iniciativas mais sérias e mais honestas enfrentam preconceitos de difícil superação. Mas a preferência pelo vinho estrangeiro decorre mais da desinformação e do complexo de vira-lata que necessariamente da qualidade ou preço do vinho brasileiro. Temos verdadeiras pérolas artesanais subestimadas, que uma escolha racional jamais justificaria serem desprezadas em prol de vinhos importados de autenticidade duvidosa, construídos artificialmente ou simplesmente de qualidade inferior. Há boas e más opções nos dois lados, cabe ao consumidor bem informado fazer uma escolha consciente, lembrando que nossas opções de consumo definem o país que queremos construir.
Cerca de 70% da produção vinícola da França, por exemplo, resulta de colheita mecanizada. Para quem valoriza vinhos de terroir, falar de colheita mecanizada dispensa comentários. No entanto, muitos desses vinhos tecnológicos, fabricados de início a fim por máquinas, corrigidos e padronizados industrialmente, cujo preço na origem chega aqui quadruplicado por frete, taxas e margens de intermediários, entram no mercado brasileiro como joias raras, idolatrados e valorizados acima dos nossos melhores vinhos artesanais feitos à mão, livres de aditivos e correções, resultantes de colheitas manuais suaves e cuidadosas. É o “prêt-à-porter” mais valorizado que a “haute couture”, um enorme contrassenso na era de culto aos produtos de terroir, que, quanto mais perto e artesanalmente são produzidos, mais são valorizados por quem busca pureza. Esse novo perfil de consumo consciente privilegia os produtos locais de estação em detrimento de frutas e verduras obtidas por métodos obscuros, em latitudes muitas vezes impróprias, colhidas verdes e transportadas por distâncias continentais, sob a ação de conservantes químicos. Conscientização parecida ocorre em prol dos azeites brasileiros, cuja qualidade e pureza há muito desbancaram os concorrentes importados, de preços baixos mas origem duvidosa, insípidos, muitas vezes fraudulentos, que já não enganam o consumidor avisado. Infelizmente esse consumo consciente ainda não chegou ao vinho, embora saibamos que os produtos agrícolas de baixa intervenção viajam mal: sejam azeites ou vinhos, quanto mais puros mais sofrem com o transporte transoceânico e as filas de espera nas aduanas. Não é novidade alguma que os lotes de vinhos destinados à exportação recebam uma dose maior de sulfitos que aqueles engarrafados para o consumo local. Quem prefere consumir vinhos mais naturais ou de menor intervenção, portanto, deve buscá-los diretamente na fonte, essa é a regra básica.
Por fim, representamos uma exceção à regra geral dos países que produzem vinho: somos a única nação vinícola do mundo que idolatra os vinhos estrangeiros, por piores que sejam, em detrimento dos próprios. Graças a esse comportamento de consumo, os importados abocanharam 87% do mercado de vinhos finos no Brasil. Por consequência, não há muito estímulo ao desenvolvimento de uma vitivinicultura de alta qualidade no país. Produzir grandes vinhos implica diminuir drasticamente os rendimentos no vinhedo, o que aumenta os custos exponencialmente. Num contexto em que praticamente qualquer produto industrial importado tem a preferência do público brasileiro, dificilmente uma vitivinicultura regional de alta qualidade poderá florescer. Isso talvez explique não termos nenhum vinho emblemático representando o Brasil no panorama mundial. Frente à incerteza de retorno de um investimento em qualidade, a maioria dos produtores brasileiros investe em quantidade. Optando pelo caminho mais fácil e mais seguro, sobrecarregam os vinhedos para atender a uma demanda interna numerosa mas pouco exigente, ávida por preços baixos. Essa vitivinicultura, historicamente voltada a grandes volumes, tem relegado o Brasil à última posição no ranking mundial dos produtores de prestígio. Com o novo acordo Mercosul-UE, a situação tende a piorar.
