La Revue du Vin de France
Por Sébastien Lapaque
Escritor, cronista literário e bom copo
A verdade fica para cá do Atlântico, o erro para lá
“Engraçada justiça a de um rio que delimita! Verdade deste lado dos Pireneus, erro do outro”, já observava o sábio e filósofo Blaise Pascal no século XVII. 8.500 quilômetros de oceano nos separam do Brasil e das duas interpretações divergentes do acordo de parceria União Europeia–Mercosul, assinado em janeiro de 2026. Se esse tratado de livre-comércio preocupa os produtores franceses de carne bovina e de aves, ele deixa nos viticultores brasileiros o amargo sentimento de que a enxurrada de garrafas europeias será devastadora. Até aqui, uma proteção tarifária muito forte permitia às vinícolas do Sul do país beneficiar-se de um mercado rentável, especialmente no segmento dos espumantes. Os vinhos europeus sofriam incidência de cerca de 27% a 35% de impostos de importação, somados a uma sobreposição de tributos nacionais e federais. Ao final, a garrafa chegava às prateleiras com o preço multiplicado de três a cinco vezes.
Mas o acordo comercial que inquieta os agricultores rebeldes da Confédération Paysanne e da Coordination Rurale, deste lado oriental do Atlântico, prevê a eliminação progressiva das tarifas sobre vinhos e destilados — e isso pode produzir um efeito de tsunami na margem ocidental. O champanhe (300 milhões de garrafas), o prosecco (600 milhões) e o cava (250 milhões) serão beneficiados pela supressão imediata dos impostos sobre os rótulos de alta gama, enquanto os vinhos tranquilos de entrada e de faixa intermediária terão suas tarifas eliminadas ao longo de uma transição de oito a doze anos.
No Brasil, encontrei viticultores recém estabelecidos e bastante angustiados. Diante do trio França–Itália– Espanha, responsável por quase 50% da produção mundial de vinho, esses artesãos de grande talento preparam- se para noites em claro, enxaquecas e colapsos nervosos.
Tendo tido, muitas vezes, a oportunidade de degustar comparativamente uma garrafa de Moët & Chandon elaborada em Épernay e uma de Chandon — um corte de pinot/chardonnay com 40% de riesling itálico, produzido no estado brasileiro do Rio Grande do Sul —, não cometerei a afronta de comparar o rei dos vinhos a seu embaixador, diante de meus amigos champanheses. Mas a redução das tarifas sobre prosecco e cava representa uma ameaça direta aos espumantes de método tradicional que permitiram ao Brasil encontrar sua assinatura vitícola desde a virada dos anos 2000. Em São Paulo, encontrei os melhores deles nas cartas dos restaurantes dos hotéis Rosewood, Emiliano e Palácio Tangará: Cave Geisse Nature, Hermann Lírica Crua, Guatambu Extra Brut e Era dos Ventos Peverella Nature.
Entre o prosecco fácil de beber, levemente adocicado e ultramarketizado, e o cava padronizado que chegará com preços de venda capazes de desafiar qualquer concorrência local, propriedades como Cave Geisse ou Era dos Ventos correm o risco de ser relegadas a um nicho de conhecedores — justamente elas que carregam a identidade e o futuro da vitivinicultura brasileira.
É assim, e não de outro modo, que o acordo de parceria União Européia–Mercosul inundará o mercado brasileiro com vinhos europeus fabricados por usinas de produção em série, em detrimento de joias locais, feitas à mão e de forte personalidade. 🍇
Traduzido por MD
Setembro de 2026
N. do T.: “fabricados por usinas de produção em série” foi a interpretação mais adequada do francês “produits par citernes” (produzidos em cisternas), cuja tradução literal não faria muito sentido em português.
