POR QUE NOSSAS NOVAS SAFRAS DEMORAM TANTO PARA IR AO MERCADO?

POR QUE NOSSAS NOVAS SAFRAS DEMORAM TANTO PARA IR AO MERCADO?

Em função das diferenças entre estações nos hemisférios norte e sul, a colheita das uvas na Europa ocorre sempre cerca de sete meses depois da nossa. Um pinot noir do Rio Grande do Sul, por exemplo, de colheita única anual (respeitando o ciclo biológico natural da videira) será sempre sete meses mais velho que um borgonha tinto da mesma safra. Em outubro de 2025 compramos borgonhas 2024 na França. Ou seja, há borgonhas de excelente reputação indo para o mercado um ano depois da colheita. Resumindo, encontramos borgonhas de 13 meses à venda na França enquanto nosso Fulvia Pinot Noir 2023 já estava com 34 meses e ainda não saíra das barricas. Hoje estamos em março de 2026 e nosso Fulvia PN 2023 já saiu de barricas, mas segue amadurecendo e afinando em tanque, onde será observado por mais alguns meses antes de ir para a garrafa, devendo ser engarrafado a certa altura de 2026 para um segundo estágio de amadurecimento (em garrafas), quando será novamente observado por alguns meses e, se tudo correr bem, liberado para o mercado em setembro de 2026, com 43 meses de envelhecimento. Esta é a forma antiga de fazer vinhos, e a única que conhecemos para elaborar vinhos de baixa intervenção mais límpidos, menos turvos, naturalmente estabilizados e melhor acabados, enfim, mais “prontos” para uma apreciação prazerosa.

Embora a vinicultura convencional tecnológica coloque no mercado vinhos cada vez mais jovens, de nossa parte optamos por práticas de baixa intervenção bastante conservadoras, seguindo tradições ancestrais de decantação e estabilização baseadas na natureza e no tempo. Para que um vinho possa representar o mais espontâneo reflexo da natureza, acreditamos ser fundamental permitir que o tempo faça seu trabalho. Ao contrário da vinicultura convencional tecnológica, que acelera o processo produtivo por meios físicos e químicos, ou de uma vinicultura natural despreocupada com com a qualidade dos resultados, que engarrafa vinhos mal acabados, excessivamente turvos ou ainda fermentando, preferimos dar tempo ao tempo para que uma sedimentação natural por gravidade aconteça, permitindo engarrafar vinhos mais transparentes e estáveis, melhor acabados, melhor lapidados, enriquecidos pelo verniz do tempo. Nossos vinhos amadurecem em média um ano e meio em barricas. Ao sairem das diferentes barricas são misturados num tanque de pré-engarrafamento para a obtenção de um resultado homogêneo, de forma que todas as futuras garrafas sejam idênticas. Neste tanque passam por um estágio de observação que pode ser relativamente curto ou durar meses. Como lidamos com vinhos vivos, não filtrados ou esterilizados quimicamente, livres de aditivos e correções, não temos total controle sobre os caprichos da natureza. Daí a importância do tempo de observação. A experiência nos ensina que o primeiro ano que sucede a vinificação de vinhos vivos é um período de constantes transformações, em que se desenrolam as fermentações finais lentas, ditas “de acabamento”. Durante o ano da safra, correspondente ao primeiro ano de vida de um vinho de uvas de ciclo biológico normal do Hemisfério Sul, as transformações são bruscas e os vinhos mudam a cada mês. Em uma vinicultura de baixa intervenção, trata-se de uma fase em que é difícil antever a direção que determinado lote irá tomar. Muitas vezes ocorre de safras aparentemente perfeitas em provas de barricas evoluirem em direções imprevistas, ou simplesmente perderem tipicidade nos primeiros meses de observação após a saída das barricas. Durante esse tempo de observação nos tanques de pré-engarrafamento, os vinhos seguem amadurecendo e estabilizando naturalmente e as transformações vão ficando sempre mais lentas e previsíveis. Pode ocorrer que uma safra de Fulvia Pinot Noir, ao sair das barricas, sofra tal modificação durante o estágio de observação que não nos pareça merecedora do rótulo, então o vinho não será engarrafado, sendo destinado a cortes ou rótulos de entrada. Isso foi bastante comum no período de testes de diferentes vinhedos, mas tende a diminuir com a escolha de um único fornecedor e o início da produção das nossas próprias uvas. Esse é o motivo de não termos Fulvia PN todos os anos. Pode ocorrer um desvio de percurso após os primeiros meses do engarrafamento, igualmente. Nesse caso, o vinho já engarrafado não será rotulado como Fulvia PN. Mas se após um bom tempo de observação o vinho em em garrafa evoluir dentro das expectativas, será liberado para a venda. Tormentas segue uma referência em vinhos brasileiros de exceção, que, como tal, só vão para o mercado se considerados dignos da assinatura da vinícola.

O ponto ideal de consumo dos nossos pinots começa a partir de dois a três anos após a data da colheita, quando os vinhos tendem a estabilizar-se naturalmente e passam a evoluir muito lentamente. Contudo, mesmo que tomemos todos os cuidados possíveis para entregar vinhos bem acabados e suficientemente amadurecidos, aptos a uma boa apreciação, cabe lembrar que praticamos uma vinicultura de baixa intervenção. Nossos vinhos não são filtrados ou estabilizados nos padrões industriais, portanto sedimentos inevitavelmente surgirão ao longo do tempo, com consideráveis diferenças entre safras e rótulos. Depósitos em garrafa não apenas representam sinais desejáveis de autenticidade e mínima intervenção, mas um dos charmes dos grandes vinhos. Para evitar turbidez na taça e privilegiar vinhos cristalinos sem filtragens ou estabilizações químicas, basta fazer uma decantação precisa antes de servir, após um período de repouso adequado em adega. Em nosso caso, deixamos os vinhos decantar e amadurecer em barricas e tanques o tempo necessário para que cheguem aos nossos clientes com máxima transparência possível. Fazemos nossa parte, mas, com o tempo e o frio das adegas climatizadas, uma nova sedimentação de cristais e borras finas deverá aparecer nas garrafas. Cabe aos clientes, então, fazerem sua parte, deixando as garrafas imóveis pelo tempo necessário e decantando com cuidado para separar as sedimentos. Em breve publicaremos um vídeo mostrando a forma correta de decantar um vinho separando as borras.