ECHEVARRÍA PINOT NOIR 2024
NOTA DO VINHATEIRO
Nas desoladoras redondezas da cidade de Canelones, onde se concentra a maior parte da atividade vitivinícola uruguaia, sobre solos calcários férteis, ricos em carbonato de cálcio, encontra-se uma pequena localidade rural chamada Echevarría (do basco Etxebarria). O solo é típico do Vale de Las Violetas e outras regiões do departamento de Canelones, conhecidas por suas terras negras e profundas, altamente produtivas. Podemos dizer que a vitivinicultura uruguaia nasceu aqui, quer pela proximidade de Montevideo, quer pela vocação das terras negras às altas produtividades. Os grandes rendimentos obtidos na terras férteis de Canelones convinham ao abastecimento dos bares e restaurantes populares de Montevideo em tempos passados, quando o consumo de vinho era enorme e a bebida não podia faltar à mesa todos os dias. Naquela época, quantidade importava mais que qualidade. Mas, à medida que os tempos mudaram, o consumo diminuiu e a qualidade passou a valer mais que a quantidade. Canelones então sucumbiu ao estigma de zona de vinhos baratos, produzidos em grandes volumes. O parque vinícola da região hoje está sucateado, as vinícolas lembram prédios abandonados e o enoturismo simplesmente inexiste, por falta de atrativos e infraestrutura hoteleira. Não há hotéis na cidade de Canelones, e a oferta de restaurantes é precária. Um tanto paradoxal considerando-se que a maior concentração de vinhedos e vinícolas do Uruguai está justamente ao redor da cidade de Canelones, capital do departamento homônimo. É nesse epicentro da vitivinicultura platina que se encontra nossa filial uruguaia, onde casa e vinícola coexistem numa pequena estância de 3 ha, cercada de ovelhas e vinhedos de tannat por todos os lados.
Este Echevarría Pinot Noir 2004 não estava nos planos, todos os tanques da nossa pequena planta de vinificação artesanal uruguaia já estavam transbordando e chegáramos ao limite da capacidade produtiva inicial de 4000 garrafas. Entretanto, não poderíamos deixar de vinificar a pinot noir de um vizinho com quem iniciáramos amizade, cujo vinhedo se encontrava a apenas 700 metros da nossa casa. A idéia era fazer uma microvinificação de apenas 200 litros, a título de teste, para conhecer a expressão de um terceiro terroir uruguaio, totalmente diferente dos outros dois. Após a análise do resultado, os 200 litros do teste seriam adicionados aos vinhos principais. Contudo, não obstante à pecha de região de grandes volumes e vinhedos em sobrecarga, o resultado foi surpreendente, com uma expressão própria: a assinatura do terroir de Echevarría. Deste vinho emanou uma elegância austera, um aroma de fruta vermelha remetendo a arando em passas (dried cranberry) que o fez diferente dos demais pinots da tríade uruguaia — e de todos aqueles que já fizéramos no Brasil. Ao palato, bastante equilibrado, com acidez e doçura no ponto certo. Seria um pecado perder um Pinot Noir de tanta personalidade misturando-o aos outros vinhos. Decidimos, portanto, engarrafá-lo individualmente, mesmo se tratando de apenas 270 garrafas. Embora somente os primeiros compradores da pré-venda conseguirão obter uma das 270 garrafas de Echevarría PN 2024, a decisão de engarrafá-lo separadamente, sob o nome da sua localidade de origem, foi válida para ilustrar as contrastantes diferenças entre as três regiões, sob idêntica vinificação, as três elaborações feitas ao mesmo tempo, no mesmo lugar, pelas mesmas mãos. Vinificando no local, vimos que no Uruguai a diversidade de resultados entre vinhedos e regiões é bem marcada. Eis a noção de terroir, que a casta pinot noir é capaz de representar como nenhuma outra. Mas é claro que, onde a cartilha da escola enológica faz a norma, a idéia de terroir perde o sentido: é impossível encontrar reflexos do terroir nos vinhos do mainstream. A noção de terroir é incompatível com a estandardização industrial. Provamos praticamente todos os pinots produzidos no Uruguai sem encontrar um só “vin de terroir”, na acepção francesa do termo. Tudo o que encontramos é fruto de uma padronização industrial que tende a transformar vinhos de diferentes safras, regiões, vinícolas (e, à vezes, mesmo castas!) numa única coisa muito parecida. Vinhos muito corrigidos e aditivados tendem a perder inclusive a tipicidade varietal, algumas vinícolas apresentam merlots e pinots que, às cegas, se confundem. Durante o período de conhecimento da produção local, compramos seis safras de Pinot Noir de uma vinícola uruguaia, representando anos entre 2004 e 2015. Todos eram idênticos, salvo um leve atijolamento da cor nos mais velhos. O Uruguai tem um mercado minúsculo, não há nichos alternativos. Para sobreviver, as vinícolas se limitam à única fórmula comercial que o público local compreende, quando tudo se mistura numa mesma amálgama de supermaturação, fruta compotada e goma arábica. No meio do vinho local, não encontramos ninguém que conhecesse (ou evocasse) os vinhos da Borgonha. Os uruguaios são enocentristas, a única referência estrangeira que parece lhes interessar é a Argentina (que pouco acrescenta em termos de pinot noir). Graças a uma abordagem autoral, minimalista, de baixa intervenção, nossos pinots feitos em solo uruguaio expressam um estilo desconhecido pelos próprios ribeirinhos, um caráter demasiado insólito para a maioria dos consumidores locais. Somos provavelmente os únicos a vinificar pinot noir no Uruguai pelo método ancestral da Borgonha. A fermentação semicarbônica de cachos inteiros com pigéage manual faz toda a diferença, portanto não esperem encontrar nada parecido por lá. Isso dito, estamos oferecendo ao nosso público de entusiastas da Borgonha uma experiência em Pinot Noir do Uruguai desconhecida pelos próprios uruguaios.
O vinho tem mistérios. Muitas vezes alimentamos altas expectativas sobre certo vinhedo aparentemente mais qualitativo e os resultados deixam a desejar, mas o oposto também ocorre: vinhedos tidos como mais produtivos, sobre solos adequados, podem dar bons resultados. Nada melhor para conhecer um terroir que a realidade na taça. Echevarría PN 2024, em prova comparada, faz bonito ao lado de seus pares aqui apresentados, provenientes de regiões mais caras e cobiçadas, agregando diversidade e interesse a este tríplice passeio pelos terruños uruguaios.
Bom para apreciação imediata, mas quem espera máxima expressão da casta deve consumir após 2029.
FICHA TÉCNICA
Localização do vinhedo: Echevarria – Canelones – Uruguai
Altitude: 41 m
Uva: Pinot Noir
Teor Alcoólico: 12%
Quantidade produzida: 270 garrafas
Colheita: manual em caixas de 15 Kg
Desengace: fermentação semi-carbônica dos cachos inteiros
Quebra das bagas: pisa humana
Remontagem: manual, por pigéage
Controle de temperatura de fermentação: não
SO2 adicionado: sim, moderado
SO2 total pós-engarrafamento: 46 mg/L
SO2 total permitido por lei no Brasil: 300 mg/L
