NOTAS DO VINHATEIRO (LANÇAMENTOS 2026)

TORMENTAS URUGUAY
NOTAS DO VINHATEIRO

SOLIS PINOT NOIR 2024

Dos nossos três pinots uruguaios, Solís PN 2024 representa o terroir mais oceânico, o vinhedo mais próximo do mar (4km da praia). Embora cerca de 80% dos vinhedos uruguaios se concentrem ao sul, no departamento de Canelones, na faixa litorânea (área de transição entre o golfo do “Mar del Plata” e o estuário do “Río de la Plata”), quase todos recebendo alguma influência marítima de natureza mediterrânea, o vinhedo de Solís PN 2024 está à frente do mar do golfo, um mar aberto, agitado, de água salgada, no coração do inspirador departamento de Maldonado. Abençoado pela maresia, encravado no topo de um cerro com vista para o mar de um lado, Punta del Este do outro, o vinhedo se estende sobre solos franco-argilosos profundos, ricos em rochas calcárias, granito e quartzo, com presença de sedimentações decorrentes da decomposição de fósseis de criaturas marinhas. O carbonato de cálcio das conchas marinhas acumuladas em milhões de anos, fossilizadas, forma calcário coquino (calcário de conchas marinhas), o que provavelmente explica a austeridade inicial deste vinho em sua fase jovem, sua mineralidade dura, elétrica, sua tensão à flor da pele. Nenhum terroir brasileiro tem esse perfil marítimo, com influência direta sobre o solo e o clima. Sem entrar no mérito de melhor ou pior, pois o que conta aqui é a diversidade, Solís é radicalmente diferente de todos os pinots que já fizemos no Brasil. Jamais vinificamos uvas pinot noir colhidas com tanto cuidado, durante a noite, e fermentadas com tanta expectativa. A proximidade de tudo, no Uruguai, fez uma grande diferença, pois no Brasil as distâncias entre o vinhedo e a cantina são continentais. Jamais elaboramos um pinot noir com tanto esmero: no Uruguai vinificamos com nossas próprias mãos, sem colaboradores. Em suma, o que faz a diferença nesses vinhos não é tanto o terroir, mas uma proximidade entre as uvas e a cantina que jamais vivenciáramos antes. Isso permite um controle muito maior sobre os resultados. O segundo fator da diferença foi nossa presença do início ao fim do processo. O resultado é um vinho sério, de longuíssima guarda, bastante hermético da fase jovem. Um vinho para iniciados. Abri-lo antes do tempo pode frustrar as expectativas de quem espera encontrar imediatamente, na fase embrionária, tudo que este pinot da escola monástica tem a expressar no futuro. Solís 2024 pode ser aberto imediatamente apenas para fins de experiência, de conhecimento, para prospectar-se o potencial de evolução, mas somente a partir de 2029 estará entrando em seu platô ideal de apreciação, devendo revelar-se em sua plenitude expressiva após uma boa década de evolução. A exemplo do Fulvia Pinot Noir 2009, que aos 17 anos de idade tem emocionado colecionadores que eventualmente abrem uma garrafa, Solís PN 2024 promete surpreender a todos que se permitam adegar o maior número possível de garrafas, abrindo-as de tempos em tempos para apreciar a evolução ao longo das décadas. Vinhedo certificado pelo programa “Viticultura Sustentável” do INAVI uruguaio, chancela equivalente à “Agriculture Raisonnée” dos franceses, que visa minimizar a toxidade da viticultura, quer em relação ao meio ambiente, quer em relação aos trabalhadores envolvidos no plantio.

SIERRAS DE MAHOMA PINOT NOIR 2024

Reza a lenda que, em meio ao pampa uruguaio, sobre as áridas coxilhas desse mar de pedras, viveu um indígena de nome “Ohma”, que teria inspirado os colonizadores espanhóis a chamar a localidade “Sierras de Mahoma”. A mancha geográfica em torno das Sierras de Mahoma não se chama “Mar de Piedras” por acaso: resulta da erosão e meteorização de rochas de granito intrusivo, geradas pelo resfriamento de magma de erupções vulcânicas há 1900 milhões de anos. Ao longo do tempo esses granitos foram se sedimentando e formando o solo pedregoso que vemos hoje, com ótima drenagem, obrigando a vinha a fincar as raízes profundamente para buscar água. São solos minerais pobres em matéria orgânica, pouco férteis, que inibem o vigor e estimulam a concentração das uvas. A exemplo do Solís PN, também aqui a mineralidade do solo arenoso e pedregoso, pobre em argila, deu origem a um pinot noir austero, de personalidade forte, duro como a rocha de onde provém, hermético, pouco acessível na fase jovem mas que certamente surpreenderá quem tiver a paciência de abrí-lo no momento certo, preferencialmente a partir de 2029. Situado no ermo departamento de San José, região nova e pouco explorada para a vitivinicultura, o vinhedo que deu origem ao nosso Sierras de Mahoma Pinot Noir 2024 foi implantado há vinte anos por uma família francesa, que fez do Uruguai seu segundo endereço. Vinhedo certificado pelo programa “Viticultura Sustentável” do INAVI uruguaio, chancela equivalente à “Agriculture Raisonnée” dos franceses, que visa minimizar a toxidade da viticultura, quer em relação ao meio ambiente, quer em relação aos trabalhadores envolvidos no plantio. Pode ser aberto imediatamente para fins de apreciação, mas somente a partir de 2029 estará entrando em seu platô ideal de expressão, devendo revelar-se plenamente após uma boa década de evolução.

ECHEVARRÍA PINOT NOIR 2024

Nas desoladoras redondezas da cidade de Canelones, onde se concentra a maior parte da atividade vitivinícola uruguaia, sobre solos calcários férteis, ricos em carbonato de cálcio, encontra-se uma pequena localidade rural chamada Echevarría (do basco Etxebarria). O solo é típico do Vale de Las Violetas e outras regiões do departamento de Canelones, conhecidas por suas terras negras e profundas, altamente produtivas. Podemos dizer que a vitivinicultura uruguaia nasceu aqui, quer pela proximidade de Montevideo, quer pela vocação das terras negras às altas produtividades. Os grandes rendimentos obtidos na terras férteis de Canelones convinham ao abastecimento dos bares e restaurantes populares de Montevideo em tempos passados, quando o consumo de vinho era enorme e a bebida não podia faltar à mesa todos os dias. Naquela época, quantidade importava mais que qualidade. Mas, à medida que os tempos mudaram, o consumo diminuiu e a qualidade passou a valer mais que a quantidade. Canelones então sucumbiu ao estigma de zona de vinhos baratos, produzidos em grandes volumes. O parque vinícola da região hoje está sucateado, as vinícolas lembram prédios abandonados e o enoturismo simplesmente inexiste, por falta de atrativos e infraestrutura hoteleira. Não há hotéis na cidade de Canelones, e a oferta de restaurantes é precária. Um tanto paradoxal considerando-se que a maior concentração de vinhedos e vinícolas do Uruguai está justamente ao redor da cidade de Canelones, capital do departamento homônimo. É nesse epicentro da vitivinicultura platina que se encontra nossa filial uruguaia, onde casa e vinícola coexistem numa pequena estância de 3 ha, cercada de ovelhas e vinhedos de tannat por todos os lados.

Este Echevarría Pinot Noir 2004 não estava nos planos, todos os tanques da nossa pequena planta de vinificação artesanal uruguaia já estavam transbordando e chegáramos ao limite da capacidade produtiva inicial de 4000 garrafas. Entretanto, não poderíamos deixar de vinificar a pinot noir de um vizinho com quem iniciáramos amizade, cujo vinhedo se encontrava a apenas 700 metros da nossa casa. A idéia era fazer uma microvinificação de apenas 200 litros, a título de teste, para conhecer a expressão de um terceiro terroir uruguaio, totalmente diferente dos outros dois. Após a análise do resultado, os 200 litros do teste seriam adicionados aos vinhos principais. Contudo, não obstante à pecha de região de grandes volumes e vinhedos em sobrecarga, o resultado foi surpreendente, com uma expressão própria: a assinatura do terroir de Echevarría. Deste vinho emanou uma elegância austera, um aroma de fruta vermelha remetendo a arando em passas (dried cranberry) que o fez diferente dos demais pinots da tríade uruguaia — e de todos aqueles que já fizéramos no Brasil. Ao palato, bastante equilibrado, com acidez e doçura no ponto certo. Seria um pecado perder um Pinot Noir de tanta personalidade misturando-o aos outros vinhos. Decidimos, portanto, engarrafá-lo individualmente, mesmo se tratando de apenas 270 garrafas. Embora somente os primeiros compradores da pré-venda conseguirão obter uma das 270 garrafas de Echevarría PN 2024, a decisão de engarrafá-lo separadamente, sob o nome da sua localidade de origem, foi válida para ilustrar as contrastantes diferenças entre as três regiões, sob idêntica vinificação, as três elaborações feitas ao mesmo tempo, no mesmo lugar, pelas mesmas mãos. Vinificando no local, vimos que no Uruguai a diversidade de resultados entre vinhedos e regiões é bem marcada. Eis a noção de terroir, que a casta pinot noir é capaz de representar como nenhuma outra. Mas é claro que, onde a cartilha da escola enológica faz a norma, a idéia de terroir perde o sentido: é impossível encontrar reflexos do terroir nos vinhos do mainstream. A noção de terroir é incompatível com a estandardização industrial. Provamos praticamente todos os pinots produzidos no Uruguai sem encontrar um só “vin de terroir”, na acepção francesa do termo. Tudo o que encontramos é fruto de uma padronização industrial que tende a transformar vinhos de diferentes safras, regiões, vinícolas (e, à vezes, mesmo castas!) numa única coisa muito parecida. Vinhos muito corrigidos e aditivados tendem a perder inclusive a tipicidade varietal, algumas vinícolas apresentam merlots e pinots que, às cegas, se confundem. Durante o período de conhecimento da produção local, compramos seis safras de Pinot Noir de uma vinícola uruguaia, representando anos entre 2004 e 2015. Todos eram idênticos, salvo um leve atijolamento da cor nos mais velhos. O Uruguai tem um mercado minúsculo, não há nichos alternativos. Para sobreviver, as vinícolas se limitam à única fórmula comercial que o público local compreende, quando tudo se mistura numa mesma amálgama de supermaturação, fruta compotada e goma arábica. No meio do vinho local, não encontramos ninguém que conhecesse (ou evocasse) os vinhos da Borgonha. Os uruguaios são enocentristas, a única referência estrangeira que parece lhes interessar é a Argentina (que pouco acrescenta em termos de pinot noir). Graças a uma abordagem autoral, minimalista, de baixa intervenção, nossos pinots feitos em solo uruguaio expressam um estilo desconhecido pelos próprios ribeirinhos, um caráter demasiado insólito para a maioria dos consumidores locais. Somos provavelmente os únicos a vinificar pinot noir no Uruguai pelo método ancestral da Borgonha. A fermentação semicarbônica de cachos inteiros com pigéage manual faz toda a diferença, portanto não esperem encontrar nada parecido por lá. Isso dito, estamos oferecendo ao nosso público de entusiastas da Borgonha uma experiência em Pinot Noir do Uruguai desconhecida pelos próprios uruguaios.

O vinho tem mistérios. Muitas vezes alimentamos altas expectativas sobre certo vinhedo aparentemente mais qualitativo e os resultados deixam a desejar, mas o oposto também ocorre: vinhedos tidos como mais produtivos, sobre solos adequados, podem dar bons resultados. Nada melhor para conhecer um terroir que a realidade na taça. Echevarría PN 2024, em prova comparada, faz bonito ao lado de seus pares aqui apresentados, provenientes de regiões mais caras e cobiçadas, agregando diversidade e interesse a este tríplice passeio pelos terruños uruguaios.

Bom para apreciação imediata, mas quem espera máxima expressão da casta deve consumir após 2029.

TORMENTAS BRASIL
NOTAS DO VINHATEIRO

ROSA EVANESCENTE PINOT NOIR 2022

A qualidade da safra 2022 pôde ser observada por quem provou Fulvia Pinot 2022. Como a safra foi excepcional, decidimos que o Rosa Evanescente Pinot Noir 2022 merecia um tempo maior em barricas, onde seguiu amadurecendo e afinando demoradamente. Prolongar o estágio em barricas em safras de qualidade é prática usual, melhora o acabamento e amplia o afinamento, a clarificação e a concentração, agregando estrutura e, consequentemente, permitindo uma maior longevidade. Rosa Evanescente é sempre fruto de nossas melhores barricas de pinot noir de uma safra determinada (geralmente duas barricas), que podem provir de diferentes vinhedos e regiões, tendo por objetivo alcançar, por meio do corte, não apenas o melhor equilíbrio possível, mas a melhor expressão possível. Com a descontinuidade do pinot noir Monte Alegre, de uvas provenientes de Campos de Cima da Serra, os cortes usando pinots de diferentes regiões ficaram mais raros, limitando novas edições de Rosa Evanescente.

Sempre em busca de melhores resultados, não temos pressa em colocar nossos vinhos no mercado. Eis aqui, portanto, um pinot noir da safra 2022, envelhecido em nossas instalações por mais de quatro anos antes da liberação para a venda. Um vinho bem lapidado, amadurecido, concentrado, ampliado por um estágio mais longo em barricas sem que isso implique uma maior presença de madeira. No nosso caso, como ocorre com os melhores vinhos europeus de terroir, as barricas são meras coadjuvantes, jamais protagonistas. São barricas de muitos usos, já não aportam gosto. São neutras. Sua função é meramente de afinamento, microoxigenação e acabamento, promovendo uma melhor transparência (pela decantação mais demorada) e uma maior concentração, decorrente da evaporação de água na ordem de 8% ao ano. Importante lembrar que a concentração natural causada durante o estágio em barricas ocorre por retirada de água, já que não é o vinho, em si, que evapora, mas sim parte da água que contém, promovendo uma concentração dos componentes aromáticos e polifenóis. Em poucas palavras, Rosa Evanescente Pinot Noir 2022 amadureceu prolongadamente em barricas, depois em tanque, por fim em garrafas, sem pressa, sob nossa supervisão cuidadosa, durante quatro longos anos de afinamento. Importante lembrar, igualmente, que jamais filtramos nossos vinhos. A transparência deste Rosa Evanescente 22, praticamente sem sedimentos, pode sugerir filtragem, mas não é. Ocorre que quanto maior o tempo de amadurecimento em barricas, maior a limpidez do vinho engarrafado. O volume de precipitação dos sólidos em suspensão é proporcional ao tempo: quanto mais um vinho amadurece em tanque ou barrica, maior a precipitação das partículas que causam turbidez. No momento do engarrafamento os sedimentos sólidos repousam no fundo do recipiente, sendo facilmente separados do liquido. Assim, o vinho entra em garrafa mais límpido.

Neste Rosa Evanescente Pinot Noir 2022 esperamos o tempo necessário para que nossos clientes não precisem esperar: o vinho já entrou no ponto ideal de apreciação, podendo ser consumido imediatamente. Não obstante, estamos à frente de um pinot noir longevo, com estrutura para evoluir em adega por longas décadas.

GAMAY & CABERNET-FRANC VELHAS VINHAS 2023

Ter tido o privilégio de poder adquirir as uvas deste vinhedo histórico é fato raro no individualista e competitivo mundo do vinho, onde o altruísmo é uma virtude tão rara. Uma exceção concedida graças à empatia dos proprietários, pelo significado que essas vinhas encerram na história do vinho brasileiro. Os detentores do vinhedo mais antigo do país compreenderam que a importância dessa propriedade vai muito além do seu valor comercial. Eles não vendem suas uvas, mas abriram uma exceção em apoio ao nosso projeto de vinificar, com mínima intervenção, as uvas do vinhedo mais velho do Brasil. Frente à reciprocidade de sentimentos sobre esse vinhedo, reconheceram o quanto nos sentimos honrados pela oportunidade, e o entusiasmo com que elaboramos esses vinhos, movidos por uma devoção quase litúrgica. A emoção de poder vinificar as uvas das videiras mais antigas do Brasil ainda vivas deveria ser contagiante, deveria encontrar mais eco nos enófilos brasileiros movidos por um mínimo de, se não nacionalismo (sentimento em desuso), interesse pelo país onde nasceram. Adquirir os vinhos da nossa série “Velhas Vinhas”, tão simbólicos para o Brasil, é dar um voto de apoio à sustentabilidade de um empreendimento, que, além de gerar empregos, riquezas e impostos locais, há vinte anos contribui ativamente pela inclusão do Brasil no hall das nações produtoras de grandes vinhos, parafraseando o legendário Mark Williamson, inglês radicado em Paris, fundador do histórico Willi’s Wine Bar, em 1980. Williamson usou essas palavras para definir nosso trabalho, num artigo publicado em 2010. Se nacionalismo nunca fez muito sentido no Brasil, ao menos alguma curiosidade sobre os vinhos resultantes de um vinhedo brasileiro de 50 anos deveria existir. Em meio a um mercado colonizado por produtos industriais desprovidos de alma, 85% dos quais importados, prestigiar um vinho vivo, do terroir, elaborado artesanalmente com baixa intervenção, encerrando um significado histórico e aqui em oferta (a preço modesto), é o mínimo que podemos esperar da comunidade brasileira de enófilos, em consideração aos nossos 20 anos de esforços para incluir a vinicultura brasileira no panorama internacional.

O corte Gamay & Cabernet-Franc Velhas Vinhas 2023 é fruto do vinhedo mais antigo do Brasil ainda vivo. O vinhedo foi plantado em 1976 (ano do famoso Julgamento de Paris) pela norteamericana Almadén, na onda de um grande entusiasmo sobre o potencial vitivinícola de algumas regiões do Novo Mundo. Mas não foi por acaso que os norteamericanos escolheram Bagé (e logo depois depois sua vizinha Santana do Livramento), na Campanha Gaúcha, como a melhor região do hemisfério sul para uma vitivinicultura de qualidade. Essa escolha partiu de estudos realizados em 1972, numa joint venture entre as universidades de Davis (Califórnia) e Santa Maria (Rio Grande do Sul). Em 1973 a empresa americana construiu uma planta de vinificação em Santana do Livramento e em 1974 teve início a implantação do vinhedo com mudas importadas da Califórnia.

O corte Gamay & Cabernet-Franc Velhas Vinhas 2023 que temos o prazer de apresentar é proveniente da última parcela plantada durante a construção do vinhedo, datando de 1978 (cabernet- franc) de 1980 (gamay). Quando este corte Velhas Vinhas pingar em sua taça, portanto, pense nos 50 anos que separam o plantio dessas mudas do vinho que chega ao seu copo. Quantas transformações o mundo viveu enquanto essas videiras engrossavam seus troncos em silêncio, década após década, transformando-se em pequenas árvores e cravando suas raízes profundamente em busca de água, na terra seca e arenosa de Livramento. Como vinhateiro e como brasileiro é difícil restar indiferente frente a essa história. Muitos de nós éramos crianças ou sequer tínhamos nascido quando pesquisadores do outro lado do mundo apontavam a Campanha Gaúcha como uma das melhores regiões do hemisfério sul para vitivinicultura de qualidade. Isso nos ensina o quanto devemos às gerações que nos precederam, pois quando o assunto é vinho nada acontece imediatamente, tudo é fruto de muitas décadas de árduo trabalho, pontilhado de erros e acertos. O caminho que hoje trilhamos confortavelmente foi aberto por nossos antepassados com muito sangue, suor e lágrimas. Gamay & Cabernet-Franc Velhas Vinhas 2023 foi movido por um sentimento de gratidão aos pioneiros da vitivinicultura no Brasil. Um vinhedo com muitas chancelas: o mais antigo do Brasil ainda produzindo, o primeiro em espaldeiras, o primeiro em gobelet e o maior do país em extensão. Foi um prazer transformar essas uvas em vinho da forma mais natural possível, tentando interpretar, do modo mais sincero, o que essas velhas videiras têm a dizer. Com quase meio século de vida o vinhedo mais antigo do Brasil está perdendo as forças, já é um ancião de bengala, mas segue entregando seus frutos com dignidade, gerando vinhos mais elegantes que potentes. Gamay & Cabernet-Franc Velhas Vinhas 2023 é um vinho complexo, difícil de descrever, diferente de tudo que conhecemos. É um vinho sutil e delicado, cujo bouquet remete a uma frágil trama de renda fina, mais composta por rosas evanescendo que por frutas vivas. ATENÇÃO: esta é uma experiência única. O vinhedo não nos pertence, portanto não faremos novas safras da série Velhas Vinhas. Fica o convite a provar estes vinhos enquanto durar o estoque. Não perca esta oportunidade única de conhecer a expressão do vinhedo mais antigo do Brasil, em sua interpretação mais natural e autêntica possível.

Recomendamos consumo imediato. Não vislumbramos vantagens na guarda. Em vinicultura de baixa intervenção, há vinhos cuja estrutura não necessita um tempo maior de guarda. Pelo contrário, o envelhecimento pode comprometer nuances complexas que devem ser apreciadas enquanto ainda presentes.

CHENIN BLANC VELHAS VINHAS 2023

Tudo que tínhamos a dizer sobre o vinhedo (e mais um pouco) já foi dito nas resenhas sobre o Gamay Velhas Vinhas 2023 e o Gamay & Cabernet-Franc Velhas Vinhas 2023. Esta chenin blanc foi plantada em 1978 na Campanha Gaúcha, por empreendedores norte-americanos. As mudas foram trazidas da Califórnia. Por tratar-se de uma casta que aporta bastante acidez, toda a parcela de chenin é hoje misturada a outras uvas brancas para a produção de espumantes. Os proprietários do vinhedo não usam esta uva para vinhos tranquilos, o que torna nosso Chenin Blanc Velhas Vinhas 2025 um tanto inédito.

No Vale do Loire a chenin blanc dá origem aos vinhos de sobremesa da prestigiosa apelação Quarts de Chaume Grand Cru, tidos entre os melhores brancos do mundo. E concordamos: esses vinhos são incríveis. Embora nosso chenin seja um branco seco, seu aroma intenso e tiolizado remete aos Quarts de Chaume. O palato — ainda muito jovem — confirma a potência dos aromas: acidez natural eletrizante; muito nervo; muita tensão. Um ataque pungente no palato, austero e gastronômico, faz do Chenin Blanc Velhas Vinhas 2025 um vinho enérgico, diferente dos brancos macios do mainstream: este chenin é tudo menos um “branco de piscina”. Ocorre que nossos vinhos são feitos apenas com dois ingredientes: uvas e SO2. Isso faz toda a diferença em relação aos brancos mais comerciais do mercado, que em geral contêm aditivos para amaciar a textura ao palato, leveduras adicionadas para gerar de aromas específicos, filtragem cerrada que pode arrastar parte da complexidade expressiva, acidificação artificial e uma série de outros tratamentos e correções. Os brancos comerciais padronizados são os vinhos mais tecnológicos do mercado, mas os nossos são diferentes. Não têm maquiagem, podendo eventualmente parecer um pouco mais rústicos, de cor mais dourada, menos redondos ao palato. Consumir vinhos mais puros deve compensar as pequenas diferenças que possam — eventualmente — existir entre uma vinicultura de baixa intervenção e aquela mais comum, convencional ou tecnológica. O “amaciamento” ou o “arredondamento” artificial dos vinhos comerciais é um dos mantras da enologia moderna, quer por adição de manoproteínas, quer por adição de goma arábica. No tipo de vinicultura que praticamos, a idéia é reduzir ao máximo a distância entre o cacho e a taça. Acreditamos que menos intervenção é sinônimo de mais caráter e autenticidade.

É um prazer compartilhar mais um vinho representativo do vinhedo mais antigo do Brasil, mas é importante lembrar que trata-se aqui de um ensaio experimental que não terá continuidade. O vinhedo não nos pertence e seus proprietários não vendem as uvas, esta foi uma exceção, uma ação de natureza institucional. Fazendo uma analogia com a música, é como se os proprietários do vinhedo fossem os autores da letra, e nós, os intérpretes de uma nova versão. Tivemos autorização para interpretar essa canção por uma breve temporada, dando aos interessados a oportunidade de conhecer uma interpretação artesanal, com mínima intervenção, de uvas que normalmente destinam- se a grandes produções em escala industrial. Ao longo de nossos 20 anos de história, comprar uvas de outras vinícolas ou de viticultores que fornecem para várias vinícolas foi prática constante. Quase todos os pequenos produtores artesanais compram uvas de vinícolas maiores nos primeiros anos. Alguns optam por não investir jamais num vinhedo próprio, e outros, que possuem vinhedo, eventualmente compram variedades diferentes de outras vinícolas ou viticultores. Isso permite ao enófilo observar a enorme diferença entre vinhos feitos com as mesmas uvas, de um mesmo vinhedo, por diferentes mãos, conceitos e técnicas.

Via de regra os vinhos brancos devem ser consumidos jovens, mas este Chenin Blanc Velhas Vinhas 2025 pode ser guardado por alguns anos, se assim desejarem. Sempre lembrando que, no caso das maioria dos brancos clássicos, não existe um ganho necessariamente positivo em guardas muito longas. Existe, sim, uma transformação, principalmente em relação à perda do caráter frutado. Um bom branco não vai ser necessariamente melhor envelhecendo. Vai ser diferente. Em vinicultura de baixa intervenção, essa transformação pode ser mais intensa que em vinicultura convencional.